Violência Obstétrica (VO) – Porque já um dia cometi…hoje quero ajudar-te a não seres vítima dela

Tu podes evitar ser vítima desta VO. Só tens que saber o que podes fazer.

Quanto a mim, enfermeira especialista em saúde materna…é verdade sim…cometi VO e não é propriamente fácil pensar dessa forma.

Sou e sempre me considerei a mulher do Amor e não da violência, contudo e após o tanto que tenho aprendido ao longo destes dois anos, percebi que não só cometi, como fui vítima, como sou fruto dela.

Sou esta…

Filha de uma cesariana retirada à mãe. Que não conheceu a tão importante “pele a pele”, que não conheceu amamentação. Nem após o parto nem nunca.

Mãe de dois partos induzidos e induções porquê? Como tantas outras…porque sim! Estava consciente do que ia fazer…mas muito desinformada.

Enfermeira que durante duas décadas cumpri prescrições e protocolos, sem questionar se era mesmo aquela vontade da grávida; que tantas episiotomias (corte do períneo) fiz, sem perguntar se o poderia fazer; que tantas vezes pedi silêncio sem perceber se o desejo daquela mulher era mesmo gemer e gritar.

Esta sou eu e que quando leio estas palavras que escrevo e reflito sobre elas, olho para baixo e só me ocorre a palavra “PERDÃO”!

Perdão a todas as mulheres que também um dia foram vítimas do meu saber, que parecia o melhor e afinal…era tão redutor ainda; Perdão pelo meu silêncio, que perante as palavras menos próprias ou até rudes de outros profissionais, as poderia ter defendido e até protegido e dado segurança; Perdão pela minha ausência de sorriso e disponibilidade, fazendo parecer que a protagonista daquela história era eu…e não aquela grávida e família que estava a nascer.

Foi preciso sair daquele “terreno” que se por um lado amava, por outro me asfixiava. Eu não estava feliz, mas nem mesma eu sabia o porquê. Mais tarde percebi e por isso hoje aqui estou a ajudar-te a perceber que profissionais são estes e como podes proteger-te para não seres mais uma vítima de VO.

Estamos perante uma grande mudança de paradigma do parto e essa mudança será mais rápida, quanto mais informada está a grávida /família e quanto mais humildes e empáticos forem os profissionais

Sim queridos colegas e outros profissionais do parto…leram bem. Humildade e empatia são as características fundamentais à mudança deste paradigma, pois só após a sua aquisição, conseguimos estar disponíveis a aprender mais, melhor e diferente e a nos colocarmos no lugar das grávidas/famílias, percebendo os seus desejos e o que esperam vivenciar naquele acontecimento das suas vidas.

Eu sei que a remuneração e o reconhecimento, não estão alinhados com o volume de trabalho nem com a nossa responsabilidade. Eu já aí estive mais de duas décadas e isso é uma enorme verdade. Contudo esse não pode ser o motivo para não avançar para um paradigma diferente – aquele em que é a mulher a protagonista desta história

e em que nós teremos obrigatoriamente que ser mais “parceiras” do que “parteiras”, pois se estiver tudo bem…o parto será unicamente da mulher!

A ti que estás grávida, quero deixar-te antes de mais três mensagens relativamente aos profissionais de saúde, mais precisamente do parto hospitalar:

1º – Nós, profissionais do parto hospitalar[1], só sentiremos a verdadeira necessidade de mudança, com a tua persistência; com a tua manifestação de poder do teu corpo e dos teus desejos neste acontecimento tão belo e único da tua vida. O paradigma do parto mudará, quanto mais persistente tu fores e informada tu estiveres. Mas não te esqueças… SÓ persistência com Amor e educação, darão um resultado incrível.

2º – Os profissionais estão exaustos, mal reconhecidos e remunerados e por vezes uma simples observação tua, como – “tem um nome bonito; obrigada por estar aqui comigo; hoje parece estar cansada” – tem um impacto muito forte. São muitas vezes essas palavras que nos fazem sentir como “pessoas que somos” e que vale a pena continuar nesta jornada em que nas instituições nos vêm apenas como números!

E não! Não estou a defendê-los. Estou apenas a fazer com eles o que é importante fazerem consigo – compreensão!

3º – Uma boa percentagem dos profissionais do parto hospitalar, desconhece esta vertente natural do parto – eu desconhecia completamente. Há mais de um século que vivemos “agarrados” a um modelo biomédico e intervencionista em que o médico é a figura principal e que sem ele não há mulheres que consigam parir, nem bebés que consigam nascer. Precisamos da tua força e informação para cultivar o modelo bio-psico-social, em que TU és a protagonista deste acontecimento.

Deixo-te também vários conselhos:

Informa-te! Informação é poder e só munida de conhecimento sobre a anatomia do teu corpo e fisiologia do trabalho de parto, poderás argumentar, manifestar os teus desejos e fazer escolhas conscientes. Só com informação, conseguirás com maior clareza, manifestar o teu consentimento ou recusa informada.

Tenta perceber o que gostarias de vivenciar neste acontecimento tão mágico e adequa o máximo à tua condição de grávida. Por exº se tens que fazer uma cesariana; se tens alguma patologia da gravidez; ou outra qualquer intercorrência. Tu também poderás ter uma experiência positiva. Só tens que te informar com alguém que seja profissional do parto, com autoridade para o fazer, que esteja alinhado com o que realmente queres e em quem confies (médico obstetra, enfª especialista; doula; fisioterapeuta com especialização em saúde da mulher)

Faz o teu plano de parto. Este documento revela informação da tua parte e embora possa ser alterado, isso não te impede que manifestes o que desejas experienciar neste acontecimento tão ímpar da tua vida;

Diz NÃO! Dizer “não” numa instituição de saúde é algo que nos ensinaram que não se faz, pois apenas são os profissionais de saúde que sabem.

Eles sabem de facto, mas tu também se te informares. Então tentem encontrar um equilíbrio de diálogo para que se encontre a melhor prática. Na impossibilidade de isso acontecer…diz NÃO e diz sem medo de represálias, pois o que pode acontecer de pior? Eles não te ligarem importância e deixarem de ir junto de ti? Ótimo…tu precisas mesmo é de estar sozinha e a oxitocina agradece. Quanto ao resto não temas. Os profissionais também querem que tudo corra bem pois também têm vida, família e até medo do litígio. Fá-lo acima de tudo por TI e pelo teu BEBÉ que depende completamente das tuas decisões.

A ti que sofreste VO, também te digo PERDÃO e mesmo não tendo sido eu, faço-o em nome de quem o fez.

Convido-te acima de tudo e só quando te for confortável, rever todo o filme do teu trabalho de parto e parto e tentares perceber o que aconteceu e onde de alguma forma poderás ser responsável. O que poderia ter sido diferente? O que poderias ter feito ou dito? E o que ainda não fizeste?

Serão estas respostas que mudarão tudo numa próxima experiência e será esta dor que te irá libertar e dar consciência que tu sim…TU ÉS A PROTAGONISTA DESTA HISTÓRIA…COMO A QUERES REESCREVER?!

E para terminar dizer-te que acredito que combateremos esta guerra com o Amor. Ainda assim se não vai lá com o Amor, que seja a Dor a nossa arma de combate.

Para mudar o Mundo precisamos MESMO de mudar a forma de nascer – Michel Odent

[1] Eu já não faço parte do hospital desde 2018, mas fiz durante 23 anos.

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